A história do Brasil para quem tem pressa, de Marcos Costa (resenha)

A história do Brasil para quem tem pressa, de Marcos Costa (resenha)

O que lembro das aulas de história do Brasil dos meus tempos de escola são dos acontecimentos heróicos e das figuras –supostamente– fascinantes. Infelizmente nas aulas não houve interesse em costurar os tais acontecimentos aos motivos e, mais importante ainda, as consequências. Foi tipo: Descobrimento! Jesuítas! Independência ou Morte! Inconfidência Mineira! Abolição! e por ai vai.

A história do Brasil para quem tem pressa

O livro A história do Brasil para quem tem pressa, de Marcos Costa é breve como o próprio título diz, e uns podem dizer que é superficial, mas na minha opinião o autor fez um bom trabalho traçando um mapa que liga motivações, acontecimentos e consequências que traz a gente até esse momento que vivemos.

Desde o desdém de Américo Vespúcio: “Pode-se dizer que não encontramos nada de proveito“; passando pela total falta de planejamento dos portugueses que só queriam explorar a terra; aqueles movimentos importantes, como a Independência, movida mais para aliviar a situação com os ingleses e enriquecer ainda mais quem já era rico do que para beneficiar a população; as inúmeras vezes em que medidas foram tomadas que iam na contramão do que estava acontecendo no mundo; a total falta de visão de futuro (que chega mesmo a ser mau-caratismo puro IMO), sempre visando lucros imediatos; o poder econômico SEMPRE direcionando o país conforme seus interesses “pessoais”, com total descaso a população e os efeitos colaterais… Enfim, é um livro deprimente para brasileiros, mesmo que muito necessário para fazer a gente entender nossa situação, já que a conscientização é um passo necessário para o desejo de mudança.

O livro todo é um “mas como assim?!“, mas 2 dados me impressionaram muito. O primeiro foi sobre a tal época de ouro brasileira (1945-1964), que muita gente gosta de dizer que foi muito boa, mas como tudo que já passou parece melhor do que realmente foi e nós humanos gostamos muito de romantizar o passado, o autor fez o favor de citar os dados do censo do IBGE (1940, 1950 e 1960) que mostram uma outra realidade:

  • São Paulo, dos 7.180.316 habitantes, 2.857.761 eram analfabetos
  • Rio de Janeiro, dos 1.847.857 habitantes, 885.969 eram analfabetos
  • Região Norte, dos 1.462.420 habitantes, 738.255 eram analfabetos
  • Região Nordeste, dos 9.973.642 habitantes, 6.354.777 eram analfabetos
  • Região Sudeste, dos 15.625.953 habitantes, 8.246.553 eram analfabetos;
  • Região Sul, dos 12.915.621 habitantes, 5.210.823 eram analfabetos; na
  • Região Centro-Oeste, dos 1.258.679 habitantes, 745.082 eram analfabetos

Na década de 1940, das 9.098.791 unidades prediais e domiciliares no Brasil, 2.926.807 (32%) eram de alvenaria e 5.933.173 (65%), de madeira.

Dos 1.994.823 prédios urbanos — habitados por 9.385.674 pessoas —, apenas 939.791 tinham energia elétrica; apenas 790.786 tinham acesso a água encanada; 819.770 a instalação sanitária; apenas 122.718 de seus moradores tinham telefone; 398.738, rádio; e 50.317, automóvel.

Dos 6.256.735 prédios rurais — habitados por 28.517.420 pessoas —, apenas 131.953 tinham iluminação elétrica, apenas 67.269 tinham acesso a água encanada, apenas 169.922 tinham instalação sanitária e apenas 10.323 de seus moradores tinham telefone, 34.503, rádio e 9.679, automóvel.

Impressionante que dados como este sejam vistos como uma época de ouro, mas não é totalmente surpreendente quando sabemos que apenas 45% do esgoto no Brasil é tratado, segundo dados de 2018.

O segundo dado que me chocou foi ver o valor dos empréstimos (e dos juros cobrados) a multinacionais em contraste com a linha do tempo que o livro traça tão bem. Muita gente sabe ou já leu sobre os empréstimos do BNDES a multinacionais, mas ver assim foi desconcertante:

  • Fiat-Chrysler, com R$ 3 bilhões e juros de 4,7% ao ano
  • Vale, com R$ 3 bilhões e juros de 4,2% ao ano
  • Renault, com R$ 1,5 bilhão e juros de 5,1% ao ano
  • Ford, com R$ 1,2 bilhão e juros de 4% ao ano
  • TIM, com R$ 1 bilhão e juros de 3,5% ao ano

Eu gostei do livro e recomendo para quem tem interesse em dar uma refrescada na memória sobre aquelas aulas de história, mas não tem tempo de ler o gigante de 846 páginas Brasil, Uma Biografia (que me disseram é espetacular e esta na minha lista). Apesar de A história do Brasil para quem tem pressa ser mesmo breve, Marcos Costa fez um excelente trabalho colocando tanta informação sob contexto.

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