Antisocial, de Andrew Marantz

Antisocial, de Andrew Marantz

O jornalista Andrew Marantz passou 3 anos em compania de pessoas que ele mesmo chamou de “personagens desonestos na internet” para entender como eles usam as mídias sociais para impulsionar idéias tóxicas. Dai nasceu Antisocial: Online Extremists, Techno-Utopians, and the Hijacking of the American Conversation.

Antisocial, de Andrew Marantz

Vou logo dizendo que eu gostei de Antisocial. Andrew Marantz fez um excelente trabalho de pesquisa e organização do material.

Ele começa falando dos sujeitos que se chamam “empreendedores”: usam agregadores, onde o conteúdo criado por terceiros é analisado por algoritmos, e se constatada a possível viralização desde conteúdo, ele é regurgitado em diversos sites e plataformas com a única finalidade de ganhar dinheiro com os anúncios. Logo, um site (ou centenas) com conteúdo que as pessoas querem ver = mais dinheiro para o dono do site.

É uma matemática simples, e existem centenas de pessoas por aí ganhando rios de dinheiro em cima do trabalho dos outros, que muitas vezes não ganham nada. Como a internet esta mais próxima do velho oeste do que uma utopia democrática, lucrar em cima do trabalho dos outros é totalmente aceitável para muitos.

Foi engraçado ler como esses sujeitos, donos destes sites que buscam ser o próximo Buzzfeed (que se fez assim, “usando” conteúdo de terceiros), se enxergam, ou melhor, como não se enxergam. Aliás, a dissonância cognitiva é um problema com todos os sujeitos entrevistados neste livro.

Em seguida, Andrew passa para os alt-light que querem parecer edgy e apoiam Trump, mas não querem se associar com os neo-nazis. Oportunistas que vivem de criar mentiras e/ou exageros colossais só para viralizar no Twitter. Uma vez que conseguem, é mais do mesmo do típico charlatão: “compre meu livro. meu curso. minhas vitaminas”.

Segundo Cernovich (…) duas principais leis das mídia sociais: “Conflito é atenção” e “Atenção é influência”.

Mike Cernovich é um destes tipos que começou como um PuA da vida, ensinando sujeitos desengonçados como conquistar mulheres (seja o mais misógino possível, eles rezam) e acabou desembocando no alt-light, e no final do livro já esta tentando ser outra coisa. Ou seja, o cara é movido apenas por aquilo que ele pode explorar, desprovido de qualquer noção se o que faz é prejudicial ou não. Ele quer a grana dos trouxas e também a atenção, e esta disposto a falar coisas terríveis para conseguir, mas se der ruim ele diz que é tudo brinks, sacou?

Saindo do alt-light chegamos ao alt-right: geralmente racistas, buscam uma sociedade onde os brancos estão separados do negros, querem “o fim” dos judeus, dos imigrantes, e não tem medo de admitir todo seu preconceito, racismo e ódio, desde que estejam protegidos por um pseudônimo, claro, porque arcar com o peso destas convicções publicamente é complicado, a não ser que você seja Richard Spencer (o neo-nazi que levou um soco na cara), que aparentemente veio de uma família abastada.

Um destes alt-right raivosos é um sujeito que, casado com uma judia, fala horrores sobre judeus (!) no seu programa de rádio.

Spoiler: não clique se não quiser saber este detalhe
Claro que sua identidade real é descoberta e ele vê sua vida desmoronar.
Dissonância cognitiva, lembra?

Enfim, o elenco do livro é repleto de deploráveis, palavra que Hillary Clinton usou para descrevê-los e que eles adotaram. Geralmente são pessoas suscetíveis a propaganda extremista que veem no feed do FB (ou Reddit, ou Twitter), jovens com pouca ou nenhuma inteligência emocional, com uma vida lascada (literal ou imaginária) e querem ver o mundo pegar fogo. Pessoas sem identidade, vazios, telas em branco a disposição de qualquer mal-intencionado que deseje pintar o sete.

Antisocial é um livro deprimente. Ver como certas pessoas são tão facilmente influenciadas, e o mar de oportunistas usando mentiras e conspirações para se promover e ganhar dinheiro — de maneira totalmente impune — é de revirar o estômago.

O lado bom é que eu acredito que isso vai passar. As pessoas crescem, fazem novos amigos, saem da casa dos pais, mudam de bairro/cidade, a realidade bate na porta, e tudo isso pode abrir caminho para o crescimento.

Claro que o núcleo podre que, depois de perder tudo, não terá para onde se virar, então provavelmente ficará ainda mais revoltado e determinado, e se tiver escolha, afunda com o barco.

Super recomendo Antisocial para aqueles que gostam de livros de não-ficção e que curtem tópicos contemporâneos.

Para mais informações sobre Andrew Marantz, visite sua página no Wikipédia.
Para comprar seus livros, visite Amazon.

Patricia
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Patricia