Como escrever um livro: 20 enredos Chefe

Dando prosseguimento ao post anterior, chegamos finalmente aos 20 enredos. Note que no livro cada enredo ganhou um capítulo inteiro (com excessão do 19 e 20, que estão juntos), onde o autor dá diversas dicas e exemplos, uma explicação dos 3 atos e uma lista a ser ticada para ajudar o escritor. Eu fiz um resumo para não infringir nos direitos autorais, mas ainda assim transmitir a idéia central de cada enredo. A introdução que escrevi sobre enredos esta aqui.

Vale lembrar que Tobias diz que “O truque de aprender a usar o enredo não é copiá-lo, mas sim adaptá-lo às necessidades da sua história.” Então sinta-se livre para ajustar o enredo a sua idéia/história de maneira criativa.

Como escrever um livro: 20 enredos Chefe

1. Busca

O protagonista busca por algo tangível ou não, e que potencialmente vai mudar sua vida. É importante retratar o relacionamento do protagonista com o objeto da sua busca, e igualmente importante que este objeto tenha vários níveis de significado. Não pode ser apenas um anel, mas um anel que pertenceu a um parente distante que perdeu tudo na guerra e só conseguiu salvar este item.

No final não é exatamente o anel que o protagonista busca, mas sim uma sabedoria ou conhecimento que ele aprende/conhece/desvenda no final da narrativa.

Na Busca o protagonista geralmente tem um amigo e/ou companheiros que cuidam dos detalhes e cujas limitações contrastam com as qualidades do herói, além de servirem como espelho onde o protagonista projeta suas reflexões. E geralmente vemos um outro personagem que sempre esta por perto para ajudar o protagonista. Tobias menciona várias obras como exemplo, mas eu selecionei apenas algumas por questão de brevidade:

Dom Quixote, Miguel de Cervantes
As Vinhas da Ira, John Steinbeck
O Senhor dos Anéis, J. R. R. Tolkien

2. Aventura

Diferente da Busca, onde o foco é no protagonista que pode estar fazendo uma viagem, neste enredo o protagonista sai em uma aventura e o foco é na viagem em si. O desenvolvimento pessoal do protagonista ou sua mudança/aprendizado não são fundamentais, pois é a ação, a aventura, o principal. Tobias diz que o enredo da Aventura faz sucesso pois o público gosta de experimentar o exótico, um universo paralelo, um planeta, etc. Ele diz ainda que um romance pode fazer parte da aventura (muito clichê na minha opinião), mas não é uma obrigatoriedade.

Vinte mil léguas submarinas, Jules Verne
Robinson Crusoe, Daniel Defoe

3. Perseguição

O foco está na perseguição, e a perseguição é mais importante do que os personagens. Temos uma pessoa perseguindo outra (e talvez múltiplas e alternadas perseguições). A pessoa perseguida pode ser frequentemente encurralada e de alguma forma escapar, assim a perseguição pode continuar. Tobias explica que este enredo é “a versão literária da brincadeira de esconde-esconde” e por isso é tão bem sucedido em scripts/filmes.

Alien
Tubarão
Terminator
Sherlock Holmes, e filmes de terror como Sexta-Feira 13 e Halloween

4. Resgate

Aqui alguém é capturado e deve ser libertado pelo protagonista. O Resgate é mais importante que os personagens. Este enredo pode ser usado quando o autor deseja mostrar as coisas de maneira simplista: é preto ou branco. O sequestrador é ruim, o salvador é bom. A salvação/resgate deixa implícito a existência do bem/mal. Assim se forma um triângulo entre o protagonista, o antagonista e a vítima. Pode haver um grande duelo entre o protagonista e o antagonista, após o qual a vítima é libertada.

King Kong

5. Fuga

Aqui o protagonista é capturado e deve escapar sem ajuda de terceiros. É oposto do Resgate pois o protagonista não vai atrás do antagonista para enfrentá-lo, ele tenta se libertar e fugir, porque é a vítima. A moralidade aqui também é simples: bem x mal. Pode acontecer uma perseguição após a fuga e finais surpreendentes cabem bem neste enredo.

Papillon

6. Vingança

Enredo de ação, mas que por vezes pode ser enredo de personagem (character plot). Na trama de Vingança, o protagonista ofendido busca retribuição contra a pessoa/organização que traiu ou prejudicou ele ou seus entes queridos, seja física ou emocionalmente. Tem muito a ver com vingança justiceira e retaliação. Olho por olho, dente por dente.

O enredo de Vingança lida com o lado sombrio da natureza humana, e fica mais interessante quando a vingança cega o protagonista a ponto de distorcer seus valores morais. Algumas vezes o enredo depende da indignação moral para ganhar simpatia do público.

Hamlet, William Shakespeare

7. O Enigma

O jogo de adivinha. Esta trama diverte e “desafia” o público a encontrar a solução antes do protagonista, que constantemente se depara com pistas até chegar a resolução final. O enredo pode conter ainda consequências terríveis se o enigma não for resolvido a tempo.

Tobias faz ressalvas sobre incluir pistas falsas (red herrings) na tentativa de despistar o público. Evite, pois isso irritará seus leitores. O autor deve tratar este enredo como um jogo e sendo assim, jogar honestamente. Achar um equilíbrio entre um enigma muito simples (não vai entreter o leitor) ou demasiadamente complicado (não conseguir resolver pode frustrá-lo) também é importante.

Agatha Christie
Dashiell Hammett
Raymond Chandler

8. Rivalidade

Duas pessoas ou grupos são definidos como rivais e muitas vezes enfrentam um jogo no qual só haverá um vencedor. Esses rivais tem força em áreas diferentes: um é forte, o outro é inteligente, por exemplo. Desta maneira a tensão é criada quando um vence, e em seguida o outro, sempre deixando o público incerto sobre quem será o grande vencedor. O autor deve criar situações que vão testar a força destes rivais.

Moby Dick, Herman Melville
Paraíso Perdido, John Milton

9. O Azarão

Enredo muito semelhante à rivalidade, mas o protagonista tem poucas vantagens e tudo para perder, tendo assim que superar muita coisa para vencer. O azarão geralmente ganha pela sua tenacidade e determinação, e talvez com a ajuda de amigos.

O público se identifica mais com o Azarão do que com o Rival, porque todos nós já passamos por algum momento difícil na vida. Mas lembre-se que este é um enredo geralmente com final previsível, já que todos desejamos ver o Azarão vencer.

Cinderela

10. Tentação

O protagonista é tentado/induzido a fazer algo errado, imoral ou pouco inteligente e que de alguma forma o prejudicará. Tentação nunca é para coisas boas, mas coisas ruins que possam parecer boas. Segundo Tobias, “o enredo da tentação é a história da fragilidade da natureza humana.” A batalha é interna: sim/não, pros/contras, ganhos/perdas e saber o que é certo e errado e mesmo assim, acabar escolhendo o errado. Enredo muito comum nos contos de fada.

Atração Fatal

11. Metamorfose

Neste enredo o protagonista é fisicamente transformado, talvez em animal, monstro ou alguma forma espiritual ou alienígena. Após a metamorfose o protagonista luta para reverter esta transformação ou precisa desta nova forma para um propósito particular. Eventualmente, o protagonista é libertado, talvez através de um grande ato de amor.

Dracula, Bran Stoker
Metamorfose, Franz Kafka

12. Transformação

Semelhante a Metamorfose, mas a transformação é interna ao invés de externa. Uma mudança acontece com o protagonista, muitas vezes impulsionada por circunstâncias da vida. Coisas como a guerra e seu impacto; momentos de transição, como morte, violência, divórcio, nascimento, etc, ou ainda eventos do acaso.

Após vários contratempos, o protagonista entende e amadurece (mas estamos falando de protagonistas adultos, para jovens temos o enredo abaixo).

Dr. Jekyll e Mr. Hyde, Robert Louis Stevenson
Catch-22, Joseph Heller
Kramer x Kramer

13. Maturidade

O enredo de Maturidade é similar a Transformação, mas aqui o protagonista jovem cresce. Muitas vezes o protagonista tem uma posição de observador porque ele não tem idade suficiente para participar na ação que se desenrola a sua frente. O crescimento psicológico e moral do protagonista é desenvolvido até chegar ao clímax, onde ele vai aceitar ou não essa maturidade.

Apanhador no Campo de Centeio, J. D. Salinger
Huckleberry Finn, Mark Twain

14. Amor

Amantes que se encontram, com o pano de fundo com perigo e desgraça. Ao longo do caminho eles se separam por algum motivo, mas eventualmente se reencontram em uma alegre reunião final. Pode ser também a história de um amor que acaba, mas então o foco estará em amor/ódio ao invés de somente no Amor.

Tristão e Isolda
O Morro dos Ventos Uivantes, Emily Brontë
Anna Karenina, Leo Tolstoy

15. Amor Proibido

Os amantes estão quebrando alguma regra social. Fica implícito que o antagonista aqui pode ser a sociedade ou a vida real. A sociedade diz o que é correto e aceitável, e amantes que quebram regras de raça, classe social, idade, aparência, religião ou até mesmo tabus como o incesto, enfrentarão um grande antagonista. O enredo gira em torno dos conflitos internos e dos efeitos de outros descobrindo o relacionamento.

Romeu e Julieta, William Shakespeare
Madame Bovary, Gustave Flaubert
Morte em Veneza, Thomas Mann

16. Sacrifício

Os elementos mais nobres do espírito humano são exaltados quando alguém sacrifica muito mais do que a maioria das pessoas sacrificaria. Tobias sugere que o protagonista não saiba exatamente a complexidade do que vai enfrentar, e que recue em certos momentos, já que recuar criará tensão.

Um protagonista que se atira na frente de uma bala para salvar alguém não se encaixa no enredo de sacrifício, pois não envolve o conflito interno. O sacrifício deve custar caro ao protagonista e ele deve passar por uma transformação.

Um Conto de duas Cidades, Charles Dickens
Casablanca

17. Descoberta

Este enredo é sobre o sentido da vida. Similar ao Enigma, mas aqui o protagonista deve fazer uma auto-descoberta ao invés de resolver um enigma. A premissa é que as pessoas não mudam e Tobias diz que “descoberta é o enredo mais focado no personagem de todos enredos, sendo que é sobre pessoas e sua busca por identidade.

Foco no protagonista que vai descobrir algo fundamental sobre si mesmo. A diferença entre Descoberta e Maturidade é que no enredo de Descoberta o protagonista analisa o sentido da vida, quando na Maturidade ele passa da inocência a experiência.

Retrato de uma Senhora, Henry James

18. Lamentável Excesso

O protagonista vai além do comportamento aceito pela sociedade, chegando talvez ao excesso extremo, seja por escolha ou circunstância. Drogas, álcool, jogatina, ambição desenfreada, guerra, violência. O protagonista pode ser uma pessoa normal que leva uma rasteira na vida e se perde totalmente.

A tensão principal deste enredo é fazer o público sentir que aquilo pode acontecer com eles também. O final geralmente é total destruição ou início do processo de cura.

Rei Lear, William Shakespeare
Otello, William Shakespeare

19. Ascensão e 20. Declínio

Na ascensão o protagonista começa na sarjeta. Em seguida vemos sua trajetória rumo ao topo, muitas vezes conseguindo ir além de onde chegaria uma pessoa normal. Desta forma o protagonista alcança um status quase heróico.

Exatamente no inverso da Ascensão temos o Declínio. O protagonista esta no topo, mas desce até a sarjeta e à torpeza moral, pois é incapaz de lidar com o estresse e/ou talvez prefira ceder aos vícios mais básicos do que lutar com eles.

Ambos enredos podem ser no sentido literal (do lixo ao luxo) ou figurado.

A Morte de Ivan Ilyich, Leon Tolstoy
Cidadão Kane
O Poderoso Chefão

Este são os 20 enredos sugeridos por Ronald B. Tobias. Aqui esta a checklist final que encerra o livro.

Uma dica pessoal para quem deseja aprender mais sobre enredos é: quando ler o próximo livro/filme, analise qual enredo foi usado e o que funcionou ou não na sua opinião. Essa é uma ótima maneira de ver como os mestres fazem sua mágica.

O livro 20 Master Plots de Ronald B. Tobias esta disponível em inglês pela Amazon.

Patricia

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Doida por tecnologia e viciada em Hi-Chew. Faz toda parte de design, layout e programação. E no final do dia, repõem o estoque da geladeirinha.

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