Como escrever um livro: Intro ao Enredo

Uma das coisas que pode complicar a cabeça do escritor iniciante (e muitas vezes do experiente também) é como organizar sua história em um enredo que faça sentido. O que acontecia comigo era ter muitas idéias e a medida que meu protagonista ia tomando forma eu via dezenas de caminhos para ele, e como é impossível ter um protagonista detetive, que é também um excelente chefe e pai de 4 filhos que pinta obras primas e luta contra um terrível vilão e seu vício em anfetaminas (do contrário como ele conseguiria fazer tudo isso?) parecer crível e engajar meu público, aprender mais sobre enredo me ajudou a colocar os pés no chão e conter a história que eu queria contar.

Como escrever um livro: Enredo

O livro que me ajudou foi os 20 Master Plots (20 Enredos Chefe, tradução livre, 1ª edição 1993) de Ronald B. Tobias. Neste livro ele explica os 20 enredos que servem como fundação para milhares de obras literárias, cinematográficas e teatrais. Uns dizem que o número de enredos não pode ser contado, já Rudyard Kipling disse que existem 69. Carlos Gozzi disse que eram 36 e Aristóteles disse que só existem 2 enredos: os enredos de ação e os enredos mentais.

A cada capítulo Tobias analisa um dos 20 enredos e como foi usado em obras famosas, dando dicas de como usar o mesmo esqueleto de forma a melhorar a nossa obra. Infelizmente não achei o livro em português, mas para quem sabe inglês eu recomendo a compra. Abaixo eu resumi os pontos que mais me ajudaram na minha jornada como escritora.

Segundo Tobias, todo bom enredo tem 8 denominadores comuns.

1. A tensão deve ser o combustível

Um protagonista que deseja algo e consegue não é interessante. Ele precisa de obstáculos e explicações do motivo destes obstáculos.

2. A tensão é criada através da oposição

Existe diferença entre tensão curta e tensão prolongada. Tensão curta é um rapaz que pede uma garota em casamento e ela diz não. Tensão prolongada é um rapaz que tem um vicio em drogas e a garota não quer casar com ele por causa disso, então ele precisa lutar com seus problemas (por exemplo, por que ele usa drogas? o que o levou a isso?) e se livrar do vício para conseguir ficar com a garota.

3. A tensão tem que crescer a medida que a oposição aumenta

Só assim é possível chegar ao climax da história. Para isso é necessário o uso dos conflitos (tensão prolongada).

4. Mudança na personalidade do protagonista deve ser o ponto da história

Isso nem sempre acontece em enredos de ação, o que tende a tornar os heróis enfadonhos. Os melhores livros e filmes são aqueles onde os protagonistas conseguem “crescer” na minha opinião, mas nem sempre esse é o ponto principal que o autor quer atingir.

5. Se alguma coisa acontece, deve ter importância

Não deixe seu protagonista fazer coisas que não contribuam para o enredo. Citando a famosa frase de Chekhov: “Se você mostrar uma arma no primeiro ato, ela tem que ser usada no terceiro ato.” No livro, Tobias avisa que “quanto mais você se desvia do enredo central, mais você dilui o drama.

6. As situações/causas devem parecer casuais

Todas coisas importantes introduzidas no enredo são causa-efeito (leia acima) e devem surgir naturalmente/casualmente. Usando o exemplo da arma de Chekhov, ela deve surgir tão casualmente no seu enredo que o leitor não vai suspeitar das suas intenções, a não ser que você queira que ele suspeite, é claro.

7. Sorte grande não deve ser usada no enredo

Explicações bizarras e que surgem do nada e pegam todos de surpresa não fazem parte de um bom enredo. Um bom escritor cria o universo e suas regras, mas elas devem ser consistentes do início ao fim.

8. Os personagens centrais devem fazer parte da ação central quando o climax do enredo for apresentado

Auto-explicativo, não deixe os personagens principais de fora do momento mais importante do seu livro.

Tobias explica também que os enredos tem duas correntes, uma forte e outra fraca. Uma corrente é a ação (body), onde o protagonista não muda muito do início ao fim, a ação é o foco, muito mais do que as motivações do protagonista, que permanecem constantes; e o público pode ser desafiado a resolver um mistério ou desafio. A segunda corrente é o personagem (mind), onde o protagonista esta procurando um significado maior e o impacto que isso lhe traz é o foco central da história.

Logo o autor precisa decidir qual destas duas correntes, body ou mind, vai ser a força motriz no seu enredo e qual será a secundária. Se a força motriz for a ação (body), a busca de significado e desenvolvimento emocional/mental do protagonista ficará em segundo plano, e vice-versa, se o protagonista e sua busca por significado for a força motriz, a ação ficará em segundo plano.

Outro aviso importante é sobre como questões morais devem ser abordadas. Uma história de personagens (mind) pode lidar com questões morais, e Tobias avisa que o autor não deve desequilibrar os pratos da balança de acordo com sua moral pessoal. Ele indica que se for usar a moralidade como tensão na vida do seu protagonista (divórcio, aborto, vingança, tentação, etc), apresente os dois lados da questão com argumentos lógicos, convincentes e válidos, com apelo emocional grande e de maneira alguma use falácias, propaganda e coisas do tipo.

Como disse Tolstoy “As melhores histórias não vêm de “bom vs. ruim”, mas de “bom x bom.”

A lista com os 20 enredos continua aqui. E aqui esta a checklist final que encerra o livro.

Patricia

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Doida por tecnologia e viciada em Hi-Chew. Faz toda parte de design, layout e programação. E no final do dia, repõem o estoque da geladeirinha.

2 Comments

  1. Avatar
    cris moraes09/01/2019

    conteudo interessante e salvei para poder ler com calma.

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    1. Patricia
      Patricia24/01/2019

      Fico feliz que tenha gostado. Não se esqueça de checar os posts que fiz em seguida, ainda sobre enredo. 🙂

      Responder

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