Narrador

Quando começamos a pensar em quem será o narrador da nossa história, o tópico Ponto de Vista automaticamente aparece, pois a narrativa esta atrelada ao Ponto de Vista. Ponto de Vista (PoV) se refere a maneira que os eventos da narrativa serão passadas do autor para o leitor, ou seja, é a lente através da qual você vai mostrar o universo do seu personagem e sua história para o leitor.

Narrador (Como escrever um Livro)

1ª Pessoa

Podemos escrever em 1ª pessoa, usando o Eu como narrador. Quando narramos em 1ª pessoa, nossa história será mostrada através desta única visão, o que pode gerar intimidade com o leitor, mas também significa que o narrador só pode contar aquilo que ele/ela observa.

Se por um lado a 1ª pessoa pode ser limitante, por outro, dependendo do que você vai escrever, pode ser uma mão na roda e enriquecer sua trama: um narrador que não sabe bem o que esta acontecendo, ou tem informações erradas, um narrador que simplesmente não é confiável e pode não estar contando a verdade, são alguns exemplos. As opções são muitas, então pense se esta opção narrativa vai enriquecer sua história.

Lembre-se que a narrativa em 1ª pessoa é natural, simples e gera intimidade, criando um laço entre o narrador e o leitor. Porém, um problema comum é que passar um livro inteiro na cabeça de um único personagem pode se tornar muito chato. Foi o caso do livro Valsa Negra, de Patricia Melo, livro narrado em 1ª pessoa por um sujeito obsessivo e doente. Se quiser ler minha crítica ao livro, sobre a escolha da narrativa, esta aqui.

É importante ressaltar que é possível escrever em 1ª pessoa usando mais de um narrador. Tente esta técnica caso seus personagens tenham opiniões ou perspectivas bem diferentes uns dos outros e você deseja apresentar ao seu leitor cada uma destas visões.

Porém um problema que pode aparecer é que criar várias vozes narrativas -diferentes umas das outras- de maneira convincente não é fácil. Este foi um dos problemas que encontrei no livro Lady in the Lake (A Dama do Lago), de Laura Lippman, pois todas as vozes narrativas pareciam vir da mesma pessoa. Na minha opinião o livro teria sido melhor com um único narrador.

1ª Pessoa Periférica

Geralmente o narrador em 1ª pessoa é o/a protagonista, mas às vezes é possível usar um personagem secundário como narrador, como fez Fitzgerald em O Grande Gatsby. Na minha opinião neste livro o narrador funcionou tão bem porque era um daqueles casos em que o protagonista não conseguia enxergar o que era quase óbvio para os outros, e aqui, para o narrador, Nick Carraway.

LEMBRE-SE

1) A voz narrativa deve ser consistente com a do seu personagem. Falamos sobre a voz do narrador aqui.

2) Não deixe seu narrador perder a personalidade em detrimento a narrativa. Ele também esta participando do que esta acontecendo.

3) A não ser que o narrador em 1ª pessoa consiga ler mentes, ele não pode ler pensamentos ou descrever emoções que não são visíveis a ele.

2ª Pessoa

A narrativa em 2ª pessoa usa o Você. É uma narrativa difícil e pouco usada na ficção, mais encontrada em livros de auto ajuda ou contos, por exemplo. Se mal empregada, pode dar uma sensação bizarra ao leitor, como se o narrador estivesse lhe dizendo o que fazer ou como pensar.

O consenso parece ser o de não usar 2ª pessoa em ficção, já que é impopular e difícil. Mas regras existem para serem quebradas, então se você acredita que pode usar a 2ª pessoa para enriquecer de alguma maneira sua história, mesmo que seja em pequenos detalhes como a introdução de um capítulo, vá em frente e tente.

O único livro que me lembro de ter lido usando o PoV em 2ª pessoa foi o excelente Brilho da Noite, Cidade Grande, de Jay McInerney. Então se você esta disposto a se aventurar na 2ª pessoa, recomendo a leitura.

3ª Pessoa

Podemos escrever em 3ª pessoa, usando o Ele, Ela, Eles. Esta é uma das narrativas mais comuns. Aqui o autor centraliza tudo ao redor de seus protagonistas, seguindo-os e contado ao leitor o que eles veem, sentem, ouvem e pensam. Desta maneira o leitor começa a se identificar com os protagonistas e com o que acontece com eles.

3ª Pessoa Subjetivo + Limitado

Aqui o leitor vê os eventos sob a perspectiva de apenas um personagem. É escrito na 3ª pessoa, mas tudo que vemos é o que este personagem vê e sabemos só o que ele sabe.

3ª Pessoa Objetiva

Aqui o narrador relata os fatos, mas não as emoções, pensamentos ou sentimentos dos personagens. Este estilo é mais usado em jornais e papéis científicos, e não é comum na ficção.

3ª Pessoa Onisciente

Este narrador não faz parte da história, mas sabe tudo sobre todos os personagens, desde seus sentimentos até seus pensamentos. O narrador é o deus, que tudo sabe e tudo vê. Ele pode descrever o que se passa internamente com este ou aquele personagem, conforme a necessidade da sua história. O lado bom é que você pode deixar tudo detalhado para o leitor, o lado negativo é esse também, esta tudo mastigadinho, tirando do leitor o prazer de descobrir certas coisas por si só.

3ª Pessoa – Múltiplos

Aqui o narrador pode seguir múltiplos personagens e mostrar a história pelo ângulo deles. O importante é deixar claro ao leitor quando a mudança de um personagem para o outro acontece, então é mais fácil na quebra de capítulos ou seções.

Como Escolher

Pode ser difícil decidir qual narrativa será a melhor para a sua história enquanto ela ainda não esta no papel (ou na tela do seu computador). Por isso, comece a escrever usando a narrativa e ponto de vista que você acha correta e veja se realmente ela é tão boa quanto era apenas uma ideia. Ás vezes é preciso dar um tempo de alguns dias, deixar o rascunho marinando até você voltar, ler novamente e decidir se esta tão bom como você imaginou que estaria.

Entre o Presente e o Passado

É importante decidir qual tempo seu narrador vai usar. O passado é mais comum e mais simples, e alguns críticos acreditam que escrever no presente é modismo. Mais uma vez, pense em qual tempo vai beneficiar mais sua história, qual lhe dá mais segurança e siga em frente.

LEMBRE-SE

1) Não mude o estilo de narração que escolheu no meio do livro. Mesmo que você esteja contando sua história em 1ª pessoa via vários personagens, são saia de 1ª para a 3ª pessoa, ou da 3ª pessoa limitada para a 3ª pessoa Onisciente. Tudo bem se isso acontecer durante seu rascunho, mas lembre-se de corrigir quando for revisar seu livro.

2) Seu papel como escritor é proporcionar uma experiência emocionante aos seus leitores, e de maneira geral, leitores acham mais fácil se identificar com um ponto de vista por vez.

3) Não faça seu trabalho mais difícil do que já é. Escolha uma narrativa que vai complementar a sua história e que lhe seja natural de escrever.

escrito por
Patricia