White, de Bret Easton Ellis (resenha)

White, de Bret Easton Ellis (resenha)

Fiquei animada quando vi White, primeiro livro de não ficção de Bret Easton Ellis. Li todos os livros dele e quem o seguia no twitter ou ouviu algum dos podcasts já conhece o estilo: gosta de falar o que pensa, mas nem sempre gosta de ouvir as respostas.

White, de Bret Easton Ellis (resenha)

A proposta do livro é fazer reflexões sobre sua presença online, falar sobre seus livros mais importantes, observações sociais, política, liberdade de expressão, ser ou não ser PC e muito mais.

Vou começar sobre o que mais gostei no livro: ler sobre a concepção e criação de Less Than Zero e American Psycho. Saber o que se passa na cabeça de um escritor quando ele embarca em uma obra, ainda mais quando é algo marcante (para o bem ou mal) é muito interessante na minha opinião.

A viagem nostálgica que ele fez ao passado e a realidade de viver em NYC e Los Angeles naquelas décadas alegrou o coração desta Gen X. Confesso que tenho uma queda por nostalgia.

As observações sobre cinema/filmes e a estética destes me fizeram pensar, mesmo que eu não concorde com algumas das conclusões que ele tirou. Definitivamente o que ele escreveu sobre American Gigolo me fez procurar o filme no Netflix para assistir de novo.

O livro começou a perder a energia quando Bret Easton Ellis se despencou em reclamar sobre os millennials (ele até inventou um apelido para os millennials: geração-banana -como fracos, covardes, não como a fruta); sobre as tretas no twitter; como o politicamente correto esta matando a liberdade de expressão pois faz as pessoas se auto-censurarem (!) e claro, quando ele resolveu falar sobre os troladores Kanye e Trump.

BEE se esforça para não passar a impressão de que é uma destas pessoas da terceira idade que vive reclamando da nova geração e dizendo “no meu tempo não era assim”, mas é exatamente assim que ele parece.

Sua birra com o twitter, por exemplo, é que segundo ele “todos levam o twitter muito a sério”, só para ele mesmo ficar remoendo as tretas que por lá arrumou anos mais tarde, tanto que foi preciso explicar no livro. Bret, cmon, está parecendo aquele namorado que levou um fora e passa 2 horas criticando o ex para os amigos, para depois falar que não liga pois nem estava apaixonado.

Apesar de concordar com ele que algumas pessoas levam o politicamente correto para um extremo que chega a ser problemático, não dá para julgar tudo nem todos pela régua dos extremistas, não é? É como se ele usasse tumblr, twitter e facebook de termômetro para medir toda uma geração.

Infelizmente quando ele começou a falar de política, ficou bem claro que ele não estava disposto a analisar a posição dos outros por um ângulo que não fosse o dele.

Quando ele apontou o comportamento de milionários decepcionados com a eleição de Trump, ai amargous de vez. Sim, existem os extremistas e alarmistas, gente que dramatiza TUDO, mas novamente ele comete o erro de usar os exemplos extremos para justificar seu “choque” com o comportamento bizarro destas pessoas.

Ele diz como ao crescer Gen X (algo que ele afirmou tantas vezes no livro que cheguei a pensar que ele queria dizer algo mais com isso), sem ter tratamento especial, sem troféu por participação, com liberdade total, vendo filmes impróprios sem os pais piscarem, sabendo que ás vezes ganhamos, ás vezes perdemos, enfim, ser Gen X o ajudou a entender sobre a empatia. Só que logo no final do livro ele diz não entender o stress daqueles pessoas brancas e ricas que não foram afetados pelas eleições?

Oh Bret, talvez algumas destas pessoas ricas e brancas de Hollywood não afetadas pelas mudanças empurradas pelo atual presidente podem estar preocupadas com as pessoas que de fato foram afetadas. Sem dramalhão, claro, mas empatia é justamente isso, e você afirmou ter aprendido sendo um Gen X.

Enfim, depois que o livro azedou não deu para recuperar. BEE faz força para parecer o centrista descolado que não esta entendendo por que as pessoas estão surtando com o resultado das eleições, mas o tom é insincero. E para alguém que diz não ligar, qual a necessidade de citar TANTOS exemplos extremistas no livro?

Desconfio que o motivo dele citar tantas vezes que é Gen X foi porque não queria parecer o velho matusalem para os leitores. Tenho novidade para você Bret: não funcionou! Boa parte do livro é o equivalente ao meme do homem velho brigando com as nuvens.

meme do homem velho brigando com as nuvens

Ah, e tem outra coisa, eu fui procurar, e segundo Pew Research e outros Bret Easton Ellis não é Gen X nada. Se nasceu em 1964 ele faz parte dos terríveis Boomers, e faz sentido, já que só um Boomer escreveria um livro reclamando de briga no twitter (lol, brincadeira, mas não resisti).

Enfim, o livro tem lá seus bons momentos, mas só recomendo para quem gosta muito do autor.

Para comprar livros deste autor, visite Amazon ou Livraria Saraiva.

Patricia
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Patricia

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